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jueves, 5 de mayo de 2022

THE PALE HORSEMAN - THALLIUM / THANATOS

Long story short, why did I get such an interest in human physiology? Long story short: it was wonder at the marvel that is our everyday life, and that of our ancestors in the past... and awareness of the fragility of health and life itself, how a disruption from within or from without can put an end to it all, and can even make the person who died live forever, as long as others remember that person who died violently, painfully, and/or strangely...

Understanding the way we get to live, to fall ill, and to die is as important as understanding the past or understanding the creative arts. Everything is tied together. Our psychic lives, our feelings, thoughts, inspirations... are but sodium ions passing constantly from synapse to synapse. Every artist's, composer's, writer's, designer's, even strategist's masterpieces... every great engagement in love, warfare, or creativity, is but the progress of these sodium ions, which can be used for good and for no good. We are free to decide whether right or wrong. Is freedom, then, also within these ions? We live on this petty teal planet in this ordinary star system... is there at least another sapient species out there?

At the University of Valencia I got very interested in the concept of consiliency - science and the human arts taking leaps together just like in the Renaissance, but using contemporary tools that were unavailable to out Vasa-era or Tudor-era ancestors like the Periodic Table. Speaking of which, I am following a consiliency podcast called the Episodic Table which I completely rec if you, dear readers, are interested in the issue - each and every episode is dedicated to a chemical element in the humanities, arts, and science! https://episodictable.com/start-here/ 

When it comes to blacklisted substances on this table, element 33 (arsenic) gets the worst rep. But what if I told you there is an element that out-arsenics arsenic? Stealthy as a ninja, an elusive master of disguise, lethal as they come, as flavourless and odourless as arsenic itself, it kills slowly and softly...

And the rider on the pale horse was Thanatos, and Hades was with him....

Not a very positive syncretic picture from the Revelation of the last of the four Horsemen, and yet still one that inspired Agatha Christie, along with the three fateful witches in Shakespeare's unmentionable Scottish Play, to wreak havoc with thallium in the systems of people across an idyllic shire in the British countryside.

Thallium atoms ninja their way into the system disguised as sodium atoms (a strategy familiar to anyone who has seen Star Wars Ep IV or The Wizard of Oz; countless more examples can be found here: https://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/DressingAsTheEnemy); the very same sodium ions that make up our thoughts, our emotions, our intuitions, and so forth. So, if you find yourself light-headed and sanity-slipping as well as trembling like a leaf and think "I am too young to have Parkinson," well don't fret, someone may be trying to say "good riddance" to you with a li'l thallium!

The Pale Horseman is even more elusive than arsenic by virtue of being even deeper downstairs on the periodic table. Still, there are those few and far between who know their thallium well. A well-read Christie geek pediatrician was able to save babies' lives from a serial thallium child poisoner in the nick of time, or so I have been told. Reading in this case was able to save fragile infant lives, nipped in the bud, from the scythe of the Pale Horseman... miraculously. So do like her and don't stop the reading. Don't stop the consiliency!

sábado, 22 de diciembre de 2018

Klaus Müller-Wille - TSK-IV KOMMENTAR


(Illustration von Giorgio Baroni)

Tatsächlich wird sie auch nach ihren Übertritt in den nächsten nur vage als "Königreich" ("Kongerige") beschriebenen Raum mit einer Lautfolge konfrontiert, die sie nicht mehr imaginär interpretieren kann, sondern die sie symbolisch dekodieren muss: ... Im deutlichen Gegensatz wird die Prinzessin, die diesen Raum dominiert, als "ungeheuer klug" beschrieben, wobei diese Klugheit vor allen Dingen an der alltäglichen Umgang mit schriftlichen Medien -- nämlich "allen Zeitungen, die es in der Welt gibt" festmacht: "I dette Kongerige, hvor vi nu sidde, boer en Prindsesse, der er saa uhyre klog, men hun har ogsaa laest alle Aviser, der ere til i Verden." (ASV 1,316)
"In diesem Königreich, in dem wir nur sitzen, wohnt eine Prinzessin, die ist so ungeheuer klug, aber sie hat auch alle Zeitungen gelesen, die es auf der Welt gibt."
Im Schloss selbst allerdings ist von diesem Mediengebrauch nichts zu spüren. Ganz in Gegenteil wird sie hier wieder mit einen reinen Bildmedium konfrontiert, das entfernt an die Darstellung der Arabesken und der modernen optischen Technologien in Paradisets Have erinnert. So gleicht die Decke in zentralen Schlafzimmer eine Palme mit Blättern aus Glas und an den Wänden des Schlosses, die mit "rosenrotem Atlas mit künstlichen Blumen" ("rosenrödt Atlask med kunstige Blomster oppad Vaeggen"; ASV 1,319) ausgekleidet sind, huschen Traumbilder vorbei. Die narkotische Wirkung dieser medialer Apparatur wird durch das in jeglicher Hinsicht verschlafene Betragen der Schlossbewohner eindrücklich illustriert.
(Gerd) wird auch diese mediale Traumwelt verlassen. Dabei nimmt die Emanzipation von den imaginären Medien zunächts bedrohliche Züge an. (Nichts von Vernichtung der Eskort - wenn man nicht rechnet dieses Paragraph) (Gerd) wird nicht mehr mit Traumbildern, sondern mit einer beunruhigenden körperlichen Realität konfrontiert.
(Nichts von der Reise in der Fremde)


(Althea Ann review)

I think that one of Andersen's main intentions here is, clearly, to show women as brave, capable, and self-sufficient. Throughout the story, they keep appearing: ... But there's also ...  the princess, who had no intention of marrying until she met a man who appreciated her intellect; ...


(Glory review)

The different adventures ... all represent a progression of love, of possession. ... the Princess who thought love was choosing a man who was handsome and talked well, ...
Hans (in Frozen), like the Princess of the tale, is almost shallow in his view of love, "true love" found so quickly and from nothing more than a day's meeting and a quick-witted word.



martes, 13 de noviembre de 2018

TSQ-IV: ALAUANDA DE VASCONCELOS

ALAUANDA DE VASCONCELOS FERNANDES

A RAINHA DAS NEVES, DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN: A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO FANTÁSTICO NAS AVENTURAS ...




INTRODUÇÃO

A obra a ser analisada neste presente trabalho é A Rainha das Neves (1844), bastante lida nos países europeus, mas pouco conhecida no Brasil. Atualmente, foi adaptada para o cinema na animação Frozen: Uma aventura congelante (2013) e no drama O Caçador e a Rainha do Gelo (2016). A edição escolhida para estudo foi lançada pela editora Tessitura. A tradução aqui utilizada foi feita pelo escritor e tradutor Per Johns diretamente da língua dinamarquesa. Como há diversas traduções e adaptações das obras de Andersen, optamos por trabalhar com uma versão que se comprometesse com uma tradução próxima ao original. 

O conto A Rainha das Neves é dividido em sete partes, nomeadas como histórias: ... “Príncipe e Princesa”, ...

Assim, em cada parte do conto em foco, percebemos a introdução de novos perigos, personagens com ... grande inteligência, como ... a princesa que sabe tudo sobre o mundo por meio de leituras de todos os jornais, os quais tratava de esquecer após algum tempo, e espacialidades diferentes para cada história: ... castelos, ...

Por meio de sua organização textual, percebemos que podemos definir a narrativa de Andersen A Rainha das Neves como um conto de fadas que se estrutura como novela literária, pois é dividida em histórias que se compõem como uma sequência de aventuras ... 



1.3 – O ESPAÇO CRONOTÓPICO NA OBRA 

No conto, cada história acontece em um espaço e estação da natureza diferente. Por meio de cada um deles, ... tem seus encontros com outros personagens que ... ajudam a atingir seu desejo.

Tendo em vista essa questão, Antonio Dimas expõe que o espaço é essencial para o desenvolvimento e o desenrolar da narrativa, como vemos a seguir: 

[e]ntre várias armadilhas virtuais de um texto, o espaço pode alcançar o estatuto tão importante quanto os outros componentes da narrativa, tais como foco narrativo, personagem, tempo, estrutura, etc. É bem verdade que, reconheçamos logo, em certas narrações esse componente pode estar severamente diluído e, por esse motivo, sua importância torna-se secundária. [...] Uma terceira hipótese ainda, esta bem fascinante!, é a de ir-se descobrindo-lhe a funcionabilidade e a organicidade gradativamente, uma vez que o escritor soube dissimulálo tão bem a ponto de harmonizar-se com os demais elementos narrativos [...]. (DIMAS, 1987, p.5-6) [grifos do autor] 


 Já ... conhece um palácio, um castelo de ladrões ... Todos os espaços citados, sejam eles de aprisionamento ou de novas descobertas, contribuem para constituir a subjetividade ... , tornando o texto mais fascinante a cada contato com personagens ou espacialidades diferentes.

Outro ponto a ser estudado no conto de fadas a respeito da espacialidade, é a presença da cronotopia, conceito cunhado pelo filósofo Mikhail Bakhtin. O autor cita esse termo pela primeira vez no ensaio Formas de tempo e de cronotopo no romance (1937)1 e em sua obra A imaginação dialógica (1981), nos quais ele ressalta que a cronotopia se refere às ligações e à indissolubilidade entre espaço e tempo. Baseado nas teorias da relatividade de Einstein, o teórico russo relaciona o termo com as peripécias do Homo sapiens pelo mundo e é por meio do espaço que os índices temporais são observados. Segundo Marília Amorim (2006, p.102), a palavra cronotopo “traz no nome um maior equilíbrio entre as dimensões de espaço e de tempo. [...] O cronotopo na literatura é uma categoria da forma e do conteúdo que realiza a fusão dos índices espaciais e temporais em um todo inteligível e concreto”. Assim, no texto literário foco desta dissertação, destacamos as características da passagem ... pelo castelo da princesa, ... espaços nos quais notamos a presença da cronotopia nas ações ...


Percebemos que em cada narrativa, ...  terá vários encontros pelo caminho. ... A princesa fornece ... vestimentas e uma condução para continuar a viagem;

A próxima jornada ... ocorre no capítulo intitulado “Príncipe e Princesa”. ...
mas que no castelo vive uma princesa muito sábia, a qual buscava um noivo com tanto conhecimento quanto o seu. 

O castelo, conforme enuncia Bakhtin (1998, p. 351-352), pode ser também considerado um cronotopo, uma vez que seu espaço é marcado pelos séculos dos mobiliários, das armas, dos retratos de ancestrais e nas relações entre as sucessões dinásticas, além das gerações que ali viveram. A princesa desse lugar mostra seu poder por intermédio de sua sabedoria, a qual levou anos para ser adquirida por meio de leituras dos jornais do mundo inteiro, mas seu profundo conhecimento estava em sua capacidade de lê-los e esquecê-los depois. Novamente é o paradoxo que norteia os sentidos construídos na narrativa. Ler os jornais e depois esquecer denuncia a efemeridade das notícias publicadas. Os conhecimentos que não se apagam são aqueles inerentes à condição humana. Percebemos que, assim como o castelo, que é transcrito como uma cronotopia, devido sua temporalidade e seu acúmulo de objetos, o jornal também possui a diversidade de objetos e tempos, contudo essa diversidade é evanescente. 

... que  um dia a princesa decidiu se casar e o jovem príncipe seria escolhido entre aqueles que fossem capazes de se articular de maneira clara e se sentissem em casa na nova morada real. Contudo, não foi fácil encontrar alguém, dado que 

[o]s pretendentes surgiam aos borbotões, havia muita correria e ânsia para se apresentar, mas não deu em nada, nem no primeiro nem no segundo dia. Todos sabiam se expressar muito bem quando estavam na rua, mas assim que atravessavam os portões do castelo e viam a guarda com seus uniformes prateados, nas escadarias os criados vestidos de ouro e as grandes salas iluminadas, assombravam-se. (ANDERSEN, 2013, p. 14)

Como descrito, temos aqui a relação de topofobia, quando os pretendentes entravam no castelo e visualizavam a grandeza do espaço em que a princesa vivia, já que eles não eram capazes de conversar com a princesa de forma natural. Era impossível para os homens tentarem conquistá-la, pois a riqueza do lugar, a maneira como os soldados de prata e os criados de ouro se comportavam, amedrontava-os. No terceiro dia, um rapaz modesto e sábio apareceu no reino a fim de colher um pouco da inteligência da princesa. Esse homem não sentiu aversão ao lugar que a princesa mora, mas sim, uma sensação de topofilia. Impressionada com a postura do rapaz e sua habilidade em se comunicar, a princesa se casa com ele.

 ... a sua namorada, a qual trabalha no lugar. Quebrando as regras, a corva caseira leva-a ao encontro do príncipe e da princesa. É interessante observar a presença de animais no conto, que agem como seres humanos, no caso, ambos os corvos trabalham para o reino.

Dentro do castelo, ... observa sombras de cavalos e cavaleiros se movendo na parede. ... explica que são os sonhos das pessoas nobres que ali habitam. ... conta que nesses momentos de suspensão, eles saíam por uma caçada. Qualquer pessoa, assim, poderia contemplar suas faces durante o sono. Como as personagens desse espaço são de uma classe social abastada, os seus sonhos são despreocupados e felizes.

De acordo com Sigmund Freud (1976, p.62): “Nos sonhos está a verdade: nos sonhos aprendemos a conhecer-nos tal como somos, a despeito de todos os disfarces que usamos perante o mundo, sejam eles enobrecedores ou humilhantes”. ... assim, questiona que, si um dia ... alcançasse uma posição social melhor, se ela permaneceria tão generosa e boa como era. Todavia, essa indagação fica sem resposta. É um questionamento rico em complexidade, colocando em reflexão o maniqueísmo e a linearidade das personagens nos contos de fadas.

Ao encontrar o príncipe e a princesa, ... Eles a acalmam e permitem que ela descanse na cama de lírio vermelho. ... O sonho ... diferente dos da realeza, revela o desejo íntimo de seu coração. Ceserani (1996, p.73) afirma ser comum em narrativas fantásticas a passagem da dimensão da realidade para a do sonho, lugar do insólito.

Além disso, esse cronotopo do encontro faz com que ...  chegue à conclusão de que todos os seres, independentemente de ser humano ou animal, todos são muito bons (para ela). A generosidade das pessoas ao compreenderem a grandeza de sua busca, ajuda-a a ter coragem de enfrentar os desafios do caminho o qual ela deve percorrer. 

Quanto ao espaço do castelo, as salas eram enfeitadas com flores e tudo que se via “maravilhava o olhar” (ANDERSEN, 2013, p.17). A câmara onde dormiam a princesa e o príncipe era mais majestosa ainda e suas camas eram como dois lírios. A da princesa era branca e a do príncipe, vermelha. Mais uma vez a cor vermelha da coragem e das flores que remetem à sua casa estão presentes na narrativa. Tanto o espaço da bruxa, quanto a do castelo da princesa possuem objetos análogos ... ao suo destino. 

Um tempo se passa até ... deixar o castelo. Essa passagem é marcada pelo casamento do corvo da mata e da corva caseira, os quais começam a trabalhar para os nobres para um dia possuir uma aposentadoria. Como seres dotados de características humanas, suas preocupações também são iguais aos dos seres racionais. Os animais, nesse contexto, pertencem à classe proletária, enquanto, o príncipe e a princesa representam a riqueza. Ainda que haja uma oposição entre os grupos, percebemos que as personagens não são, nesse caso do castelo, exploradas ou maltratadas por sua inferioridade. Há, na história, constante remissão à sociedade capitalista. Elementos metaempíricos e insólitos do cenário fantástico que se coadunam a elementos empíricos, sólidos, movendo possivelmente o olhar do leitor para a reflexão sobre o seu mundo. Nesse caso, a fantasia encontra-se a serviço da reflexão sobre o real. 

Outra morada real é ressaltada na narrativa e esta era a morada dos ladrões. Esse espaço intimidava ... , diversamente do castelo da princesa e do príncipe com seus guardas prateados e servos de ouro. As classes sociais diferentes entre uma e outra são claras nesse espaço, quando o confrontamos...

Foi quando a carruagem parou no pátio de um castelo de ladrões, um castelo rachado de alto a baixo, com corvos esvoaçando nas fendas abertas, enquanto enormes cães, que pareciam capazes de engolir uma pessoa inteira, davam saltos para cima, mas não latiam; era proibido. No chão de pedra de um grande e velho salão impregnado de fuligem queimava um fogaréu; [...] (ANDERSEN, 2013, p. 21) 

Observamos que esse castelo não apresentava suas esplendorosas marcas do tempo e gerações, mas, sim, eram marcados pela fuligem e animais que estão relacionados a eventos de morte, ... os corvos... se alimentam de restos de cadáveres. Já os cães são descritos como capazes de se alimentar de um ser humano. Todo o lugar coopera para que a sensação de que um assassinato prematuro possa ocorrer ... É produtivo pensar aqui como Andersen trabalha com realidades diversas em seus contos, não deixando de lado realidades adversas. Em seus outros contos, temas como a pobreza, a rejeição e o preconceito se fazem presentes. E, no caso da narrativa em análise, temos a oposição entre um castelo mágico e belo e um castelo real e horrendo, possibilitando ao leitor o contato com situações que podem fazer-lhe refletir sobre a condição humana. 

Além disso, notamos que esse encontro com a pequena ladra faz com que ... perca tudo material, além de não ter esperanças, levando a temer a morte.


1.4 – O MEDO DAS PERSONAGENS

Outra situação de medo ocorre após ... deixar o país dos príncipes. A carruagem de ouro, dada por seus amigos anteriores, percorre uma mata escura. Esse espaço aberto, permeado pela noite, chama a atenção de saqueadores que não resistem ao brilho da carruagem.

A carruagem viajava por uma mata escura, mas brilhava como um incêndio tão intenso que chegava a ferir com o seu clarão o olhar dos ladrões; era mais do que podiam resistir. - É ouro! É ouro! gritavam. Num instante se apresentaram e seguraram os cavalos pelas rédeas, matando os cavaleiros-batedores, o cocheiro e os criados, e puxando Gerda para fora. (ANDERSEN, 2013, p. 20)

 Ao se deparar com a preciosidade presente no transporte, o qual consegue iluminar o que era escuro, os ladrões não permanecem indiferentes à situação, eles ficam à espreita para ver o que passava. Isso ocorre, pois, de acordo com Chevalier e Gheerbrant (2009, p. 671), a cor dourada do ouro remete à luz, ao sol. Dessa forma, era impossível para eles desconsiderarem aquele clarão existente na mata. E, na condição de ladrões, o transporte feito de ouro chama a atenção por ser um objeto valioso, suscetível ao roubo. Além disso, o valor da carruagem é notado pelos ladrões por meio da visão e Tuan (2012, p.07) frisa que o olhar humano em uma floresta densa é o sentido mais importante. Ele ressalta que isso é percebido ao longo da história dos primatas, os olhos sempre foram maiores do que o nariz a fim de facilitar a visão, sendo o Homo sapiens um dos poucos seres capazes de notar as cores. Dessa forma, mesmo estando no meio da escuridão, os olhos treinados dos bandidos conseguem notar a passagem ... próximo à morada deles. 

Os ajudantes ... são mortos. Ela teria o mesmo futuro de seus amigos, contudo a pequena ladra intervém e pede à mãe para poupar a vida ... 

Já a pequena ladra não sabia se portar como uma menina de bons princípios éticos, pois foi mimada pela mãe, vivia em castelos abandonados em meio a florestas, juntamente com um bando de outras pessoas de má índole. Ela foi tão mimada a ponto de mandar em sua mãe. Dessa forma, percebemos que há uma inversão de valores na convivência entre a mãe e a pequena ladra, pois, normalmente, a mãe simboliza a autoridade, mas, nesse caso, a ladrazinha conseguia impor sua vontade e desejos. Observamos, assim, que há um confronto entre as classes sociais, no caso a família de ladrões, os quais fazem parte de uma área geográfica marginal. A pobreza desses personagens os conduz à malandragem e os leva a tirar de ... seus magníficos presentes dados pela princesa que encontrara no castelo anterior. Além disso, a ladra sabia como agir de maneira experiente durante assaltos, além de manipular uma faca para ameaçar seus prisioneiros.



2. O PERCURSO

Muito interessante notar que Andersen contraria o esquema dos contos de fadas tradicionais, na medida em que, em geral, é um personagem masculino que se investe do papel de herói-buscador, o qual parte em busca da salvação de um personagem feminino, frágil. Esse esquema tradicional reforça o imaginário ocidental popular do homem como ser ativo e da mulher como ser passivo (sexo frágil), à espera de sua salvação a ser realizada pelo sexo dominante. A esse respeito Martins relata: 

[e]nquanto as personagens masculinas são frequentemente apresentadas como espertas, corajosas, ativas e engenhosas, partindo do lar rumo a grandes aventuras, tais como matar gigantes, decifrar enigmas, encontrar tesouros escondidos, salvar princesas indefesas, é notório que, em se tratando da representação da figura feminina, não há meio termo nos contos de fadas tradicionais. A caracterização das heroínas e das vilãs se faz de forma que elas surjam em geral em pólos diametralmente opostos: as primeiras são figuras quase sempre domésticas, trabalhadeiras, resignadas e altruístas. Caso se atrevam a sair do ambiente doméstico, perdem-se na floresta. Quem as livra dos perigos são príncipes encantados, fadas madrinhas, lenhadores gentis. Na outra categoria encontramos as bruxas, as madrastas malvadas e as feiticeiras, que são, na maioria das vezes, as grandes responsáveis pelo sofrimento das heroínas. São figuras ativas, dinâmicas e arrojadas, buscando resolver seus próprios problemas. Atuam, reagem, assumem papéis ativos nas histórias, aos quais é atribuído um valor extremamente negativo, o que revela bem o caráter misógino desse discurso que tende a apresentar criatividade, ação e poder como traços indesejáveis nas mulheres. Assim concebidas, heroínas e vilãs parecem representar respectivamente a própria personificação do bem e do mal, numa batalha violenta, que desemboca no tradicional final feliz, no qual presume-se a destruição ou superação completa dos elementos antagônicos, negativos. (MARTINS, 2005, p.16 apud OLIVEIRA, 2013, p.04)

Andersen, dessa forma, contraria o esquema dos contos ao inverter os papéis, quebrando com os parâmetros da época e diferindo da tradição. Há, assim, uma dada dispersão em relação a uma regularidade, deslocando de certa forma a realização da função em questão. ... Duarte (1995, p.67) esclarece que, na obra do dinamarquês, o trabalho com as mulheres predomina: “os tipos de mulher maternal e ativa, de vontade forte, constituindo um grupo rico, variado e importante, com preferência entre as belas.”. Em contrapartida, Martins (2005) ressalta que Ruth B. Bottigheimer fez um estudo a partir dos escritos dos irmãos alemães, os quais eram contemporâneos de Andersen, e percebeu que, por exemplo, em “Cinderela”, a personagem não possui nenhum discurso direto, apenas o príncipe. Assim, nos contos tradicionais, a mulher é representada como um ser passivo, muitas vezes sem voz.

Já a princesa de A Rainha das Neves é descrita como uma mulher fora dos padrões da época. Inicialmente, ela reina sozinha, tem aversão ao casamento e lê bastante para se manter inteligente e informada. Com o tempo, sente-se sozinha e decide encontrar um marido, o qual ela escolhe. A jovem não deseja um príncipe, mas sim um homem com a mesma genialidade, capaz de conversar com ela sem ter medo do seu status real. 

Segundo Propp (2001, p.26), é preciso mostrar ao herói um objeto mágico e propor-lhe uma troca. No caso, a ladrazinha decide que nossa aventureira poderia ficar com as botas que ganhara da Princesa e do Príncipe, mas as munhequeiras seriam dela. Em troca, ela poderia ficar com as luvas da velha, as quais eram grandes e a protegeriam do frio. Apesar de nenhum dos itens possuírem um poder sobrenatural, eles eram capazes de mantê-la viva, superando os últimos obstáculos.

Entretanto, para alcançar o seu anseio, ela é submetida a uma prova ao longo de toda história: andar descalça. Ao ... chegar ao castelo do Príncipe e da Princesa é proibida de entrar por estar sem sapatos, o corvo a ajuda e os reis dão a ela botas para enfrentar o inverno, as quais são roubadas pela pequena ladra.

Ao sair do castelo da Rainha das Neves, após salvar seu amigo, vemos que a estação, mais uma vez, havia passado e a primavera estava começando, momento em que ...  retorna para a casa pelos mesmos locais em que ela passou anteriormente: ... ,  em seguida, ela cruza com a ladrazinha que conta que havia se cansado de ficar em casa e decidira viajar. Relata, além disso, que a princesa e o príncipe estavam viajando por outros países...

Observe que mais uma vez o cronotopo se faz presente em uma profunda metamorfose nas personagens que anteriormente haviam ajudado ... . O tempo havia transcorrido e os espaços encontrados no início da narrativa já não eram suficientes para eles, era preciso percorrer novos lugares e conquistar o vasto mundo para sofrer novas modificações.

Em relação ao espaço, verificamos que as mudanças de estações e a vivência dos lugares pelos quais ela passou, permitiu que ela tivesse importantes encontros, os quais atuaram na movente e constante construção de sua subjetividade. Em alguns desses espaços, ... se sente acolhida, como no castelo do príncipe e da princesa, ...

Outro ponto importante da obra de Andersen é o seu trabalho com temas poucos usuais ao seu tempo. O autor, devido a suas dificuldades enquanto criança, retrata o povo humilde e ambientes humildes, por meio de uma linguagem simples, comunicativa e sem ornamentações. Essas características estão presentes por toda a obra A Rainha das Neves, na qual temos ... outras (personagens) vivem o luxo e a riqueza, como o príncipe e a princesa. Contudo, mesmo diante das diferenças sociais, grande parte das personagens aparece como seres bons e preocupados em ajudar ... a cumprir sua tarefa.