III - JARDIM ENCANTADO
Que fora feito da pequena Gerda, quando viu que seu companheiro não voltava? Que fim teria levado Kay? Ninguém sabia; ninguém o tinha visto passar. Apenas um menino contou que o vira amarrar o trenó a um outro, um trenó muito grande, que saíra da cidadezinha. Depois disto ninguém mais o enxergara. Muitas lágrima correram então, por sua causa; e a pequena Gerda foi quem mais chorou.
- Ele morreu- dizia ela. - Com certeza afogou-se o enregelou-se naquele arroio que passa perto da escola.
E punha-se de novo a chorar. E que dias compridos e tristes foram os daquele inverno!
Enfim voltou a primavera, trazendo de novo o sol e a alegria; mas Gerda não achava consolo.
- Kay morreu; foi-se embora para sempre - dizia ela todos os dias.
- Não, não o creio- respondia o raio de sol.
- Ele morreu: não tornarei a vê-lo! - queixou-se Gerda às andorinhas.
- Não, nós não o cremos- responderam elas.
Afinal a menina acabou por se convencer disso também.
- Vou calçar meus sapatos vermelhos, aquele novinhos, que Kay nunca viu, e irei até o arroio: quero perguntar se ele sabe o que é feito de Kay.
Era muito cedo ainda. Ela beijou a avó, que ainda dormia, calçou os sapatinhos vermelhos e lá se foi sozinha; passou pela porta da cidadezinha e chegou à beira do arroio.
- É verdade que me tomaste meu companheiro de brinquedos? Pois eu te darei meus lindos sapatos de marroquim vermelho, em troca dele.
Pareceu-lhe que as ondas lhe respondiam com um movimento estranho. pegou então nos lindos sapatinhos- a coisa que mais apreciava! - e atirou-os à água. Não tinha muita força, a pequenina Gerda; os sapatos caíram muito perto da margem e as ondas pequeninas os repeliram para a terra. Ela bem devia ver que o arroio não queria ficar com aquele presente, porque não tinha o pequeno Kay para lhe dar em troca. Mas a menina calculou que não atirara os sapatos bastante longe da margem. Vendo um bote entre os juncos, entrou nele e, da ponta da embarcação tornou a lançar os sapatinhos à água.
O barquinho não estava amarrado, e com o movimento que ela lhe imprimiu afastou-se da margem, ficando à mercê das ondas. Gerda quis dar volta, mas quando chegou à outra ponta já o bote flutuava muito longe da terra para que pudesse saltar.
E o barquinho começou a descer o arroio e pois a entrar no rio. Gerda, cheia de pavor, pôs-se a chorar. Ninguém a ouviu, a não ser as andorinhas; mas elas não podiam levá-la para terra. Acompanharam-na voando, e, como se quisessem consolá-la, iam cantando:
- Sim, estamos aqui! Sim, estamos aqui!
O barco ia seguindo o curso da água. Gerda não chorava mais; mantinha-se agora tranquila. Estava descalça- só conservara as meias - e os sapatinhos vermelhos iam flutuando também, mas com alguma distância: não podiam alcançar o bote, que ia mais depressa.
Era encantadora a vista das margens: velhas árvores, lindas flores, relva macia, onde pastavam cordeirinhos: mas nem uma só criatura humana.
- Quem sabe se o rio não me vai levar para onde está Kay? - pensou a menina.
Esta ideia dissipou-lhe o desgosto. Levantou-se e ficou muito tempo a olhar a bela paisagem verdejante. Chegou afinal diante de um grande pomar de cerejeiras; via-se por detrás das árvores uma casinha estranha coberta de palha, e com janelas de vidros vermelhos, amarelos e azuis. À entrada estavam dois soldados de pau, que apresentavam armas às pessoas que passavam no rio. Supondo que eram vivos, Gerda pediu-lhe socorro, mas é claro que não lhe deram resposta. Entretanto o bote ia aproximando-se da terra, e a menina gritou com quanta força tinha. Saiu então da casinha uma velha muito velha, que se apoiava a uma muleta e trazia à cabeça um grande chapéu de palha, ornado de flores belíssimas.
- Coitadinha! - exclamou a anciã. - Que te aconteceu, menina, que andas assim sozinha neste rio tão grande e tão rápido? Foi a corrente que te arrastou pelo mundo tão vasto?
E a boa velha entrou na água; com a muleta puxou o bote e tirou a menina. E quando Gerda se viu de novo sobre a terra firme, sentiu-se muito alegre, apesar do medo que lhe infundia a estranha velha.
- Agora- disse a mulher - conta-me quem és e de onde vens.
E Gerda narrou. Escutava-a a velha, sacudindo a cabeça e resmungando de vez em quando:
Terminada a narração perguntou a menina se ela não tinha visto Kay. Não : ele não tinha passado ainda pelo rio, mas sem dúvida não tardaria muito em vir. Recomendou à menina que não se entristecesse, que comesse cerejas e olhasse para as flores.
- Estas são muito lindas- disse ela- do que todas as que vem nos museos de arte, que todas as que vem nos livros de figuras; além disso, ensinei a cada uma das flores uma história, que elas agora sabem contar.
Tomou a criança pela mão, levou-a para a casinha e fechou a porta. As janelas ficavam muito altas, e os vidros, como já disse, eram azuis, amarelos e encarnados, de sorte que a luz do dia, passando por eles, coloria todos os objetos de uma mescla de cores fantásticas. Sobre a mesa estava uma cesta cheia de cerejas magníficas, e Gerda comeu quantas quis, conforme lhe permitira a velha.
Enquanto comia as frutas, ia a velha lhe penteando o cabelo com um pente de ouro, e, formando lindos cachos, que cercavam como uma auréola o rostinho gentil da criança, fresco como um botão de rosa.
- Há tanto que eu desejava- disse a velha- ter comigo uma meninazinha amável como tu! Verás como vamos ser felizes agora!
Enquanto ela ia penteando os cabelos de Gerda, ia a menina esquecendo aos poucos o seu amigo de infância; porque aquela velha era uma feiticeira. Não era, contudo, malvada: apenas fazia mágicas para se distrair; e agora, como gostara da menina, queria retê-la ao pé de si.
Por isso mesmo foi logo ao jardim e estendeu a muleta por cima de todas as roseiras; e todas elas, até as que estavam cheias de vigor e cobertas de rosas belíssimas, sumiram-se imediatamente debaixo da terra, sem deixar sinal algum de que ali havia ainda há pouco tanta flor. É que a feiticeira temia que, vendo as rosas, Gerda se lembrasse das do seu sótão; lembrar-se-ia então de Kay, o seu amigo, e fugiria para procurá-lo.
Depois levou a criança ao jardim. Era um jardim esplêndido! E que perfume delicioso! Vicejavam ali flores das quatro estações do ano, de tudos os climas do mondo, e todas eram lindas. Nenhum livro de estampas, nenhum livro de arte, certamente, podia comparar-se com aquele esplendor! Gerda pulava de alegria; e brincou entre os canteiro até o sol se sumir atrás das cerejeiras. A velha levou-a então para dentro ; deitou-a em uma linda caminha, cujos travesseiros eram de seda rosa, bordados de violetas. E a menina adormeceu e teve sonhos tão lindos, como só uma rainha pode sonhar no dia da coronação.
No dia seguinte voltou ao jardim, para brincar entre as flores, aos brandos raios de sol. E assim se passaram dias e dias. Conhecia já todas as flores, apesar de haver tantas naquele jardim; parecia-lhe, contudo, que faltava uma - mas qual delas, não sabia dizer. Ora um dia, examinando o grande chapéu da velha, que era cercado de uma grinalda de flores, viu que a mais bela de todas era uma rosa. Esquecera-se a velha de tirá-la do chapéu, quando sumira as roseira debaixo da terra. É quase sempre assim: a gente nem sempre pensa em tudo.
- Que linda! - exclamou Gerda. - Não haverá rosas neste jardim?
E pôs-se a examinar minunciosamente canteiro por canteiro: nada! Não havia uma única rosa. Atirou-se de bruços ao chão, chorando, muito aflita. As lágrimas que derramava caíram exatamente no lugar onde estava uma das roseiras que a velha tinha sepultado, e quando a terra ficou bem regada de lágrimas, surgiu de repente a roseira, tão lindamente florida como no momento em que fora soterrada.
A alegria de Gerda não teve limites: beijou as flores, uma por uma, e depois lhe vieram à memória as que tinha deixado em casa, diante da janela do sótão- e então lembrou-se também de Kay, o seu amigo de infância.
- Meu Deus! - exclamou ela. - Quanto tempo perdi aqui! Eu, que sai de casa para procurar o meu companheiro de brinquedos...
Voltou-se para as rosas e perguntou:
- Saberão vocês onde está ele? Estará mesmo morto?
- Não; morto ele não está - disseram as rosas. -
Nós estivemos debaixo da terra; e lá que se encontram todos o que morrem, e ele lá não está.
- Obrigada! Muito obrigada!
E Gerda falou então com as outras flores; curvava-se sobre seus cálices, tomava-os entre as mãozinhas minúsculas, e perguntava:
- Tu não sabes onde está Kay?
E as flores respondiam-lhe. Ela ouvia as histórias que elas sabiam contar, mas eram apenas fantasias. Quanto ao pequeno Kay, nenhuma delas o conhecia.
Que diria o lírio tigrados? Vamos escutá-lo:
- Não ouves o tambor? "Tan, tan! " Só tem duas notas: "Tan! Tan!" Não ouves o canto fúnebre das mulheres? Não ouves as ordens dos sacerdotes? Envolta em sua longa túnica vermelha, a esposa viúva mantém-se sobre a fogueira; as chama sobem, envolvendo-a, juntamente com seu defunto marido: mas a esposa viúva parece não sentir o martírio. Crês que a chama da alma possa perecer nas chamas da fogueira?
- Mas como queres tu que eu o saiba? - perguntou a pequena Gerda.
- Pois a minha história acabou- disse o lírio tigrado.
Que teria contado a ipoméia?
- Na encosta da montanha está suspenso um velho torreão. A hera alastra-se pelos muros e seus brotos viçosos sobem até o balcão, onde se vê, de pé, uma moça. Ela se debruça sobre a balaustrada e sonda o estreito caminho com olhos ansiosos. Que flor, naquelas ruínas! A rosa não é mais louçã, nem se liga com mais graça à sua haste; a flor da macieira, que a brisa agita, não é mais aérea, nem mais graciosa. Escuta o suave ruge-ruge do seu vestido de seda... escuta o que ela murmura baixinho: " Não virá ele?"
- É de Kay que estás falando? - pergunta Gerda.
- Não, ele não figura no meu conto- respondeu a ipoméia.
Que disse a pequena fura-neve?
- Entre os galhos da árvore oscilam duas cordas, às quais está presa uma tábua: é um balanço; nele se embalam duas meninas muito lindas, de vestidos alvos como a neve, e compridos laços verdes no chapéu. O irmão, maior que elas, está de pé no balanço, com os braços passados pelas cordas, para manter o equilíbrio- porque tem uma taça em uma da mãos e na outra um canudinho - e sopra bolhas de sabão. Move-se o balanço e as bolhas sobem no ar, todas irisadas. ... A última ainda está pousada na ponta da palhinha, e agita-se ao sabor da brisa. O cachorro negro corre e ergue-se nas patas traseiras: também quer subir ao balanço, mas este não para no seu vaivém, e o cãozinho late, irritado. As crianças o incitam, enquanto as lindas bolhas rebentam e se desfazem.
É muito lindo o que contas- disse Gerda- mas tem uma expressão tão triste... E meu companheiro, o pequeno Kay? Não sabes onde está?
Mas a fura-neve, a campainha branca e minúscula, fica calada.
Que conta o jacinto?
- Eram três lindas irmãs, vestidas de gaze: uma de vermelho, outra de azul e a última de branco. De mãos dadas, dançavam ao luar, à beira do lago tranquilo. Não eram elfos, não: eram da raça dos homens. E que perfume penetrante saturava o ar! As donzelas sumiram-se na mata. Que sucedeu? Que infortúnio caiu as lindas moças? Olha aquele barco que desliza sobre o lago: traz ele três esquifes, que encerram os corpos das donzelas. Dormem as dançarinas do lago? Ou estarão mortas? O perfume das flores diz que estão mortas. E os sinos do crepúsculo dobram a finados.
- Ah! Sombrio jacinto! Tua história é muito lúgrebe! Ela me deixou ainda mais triste...Escuta: meu amigo Kay está morto, como as tuas donzelas? A s rosas dizem que não; e tu, que é que dizes?
- Din, don! Din, don! tangeram as campainhas roxas dos jacintos. Não dobramos pelo pequeno Kay! Nós nunca o vimos! Cantamos apenas a nossa canção - a única que sabemos. Din, don!
Gerda interrogou o dente-de-leão, que se expandia entre as folhas verdes:
- Tu brilhas como um sol pequenino- disse-lhe, - Sabes onde poderei encontrar meu companheiro de brinquedos?
O dente-de-leão brilhava, de fato, sobre a relva; ele entoou uma canção, mas os versos não falavam do pequeno Kay.
- No primeiro dia de primavera, o sol esplendido de Deus Nosso Senhor desceu para aquecer um pequenino patio fundo, deslizando seus raios pela parede branca de uma casa vizinha. junto à parede aparecia a primeira flor amarela do ano, reluzindo como uma moeda de ouro. A velha avó estava sentada na sua cadeira; a neta correu a beijá-la. Ela não era mais que uma pobre criadinha, e ainda assim seu beijo valia mais que todos os tesouros do mundo, porque a menina pusera nele todo o seu coração. E tudo era ouro:
" Ouro - a flor perfumada e louçã
Ouro - a fresca e brilhante manhã!"
E o dente-de-leão continuou:
- Acabou-se a história, e não sei outra.
- Coitada da avózinha! - exclamou Gerda. - Ela me preocupa, aflige-se com a minha falta, como eu com a falta de Kay... Mas breve voltarei a casa, e com ele! De nada vale perguntar a estas flores: elas são muito egoístas, só pensam em si mesmas!
Arregaçou o vestido para poder andar mais ligeiro, e correu direito ao portão do jardim; mas um narciso bateu-lhe nas pernas, quando saltava por cima dele. A menina parou e olhou para a flor de haste comprida, e perguntou-lhe:
- Saberás, acaso, alguma coisa?
Curvou-se para a flor, e...que lhe teria dito o narciso?
- Vejo-me! Vejo-me! E que suave é o meu perfume! Lá bem cima, no sótão, mora a dançarina. Descansa às vezes sobre a ponta de um pé, às vezes sobre as duas. Parece que está pisando a pés o mundo inteiro- e ela não é mais que uma ilusão. Deita água do bule de chá em um pano que tem na mão: é o seu corpete- grande coisa é o asseio! Seu vestido branco está pendurado em um cabide; ela já o lavou também com a água do bule, e estendeu-o no telhado para secar. Veste-o, e põe ao pescoço um lenço amarelo - e o vestido branco parece mais branco. Vê como é tesa, e como ergue a cabeça, equilibrando-se no seu talo esguio! Vejo-me! É o meu retrato!
- E a mim que me importa isso? - replicou Gerda. - É inútil tudo o que me contaste.
E correu para o portão; estava fechado, mas a menina apertou com tanta força a aldrava enferrujada que esta saltou do gancho. Abriu-se a porta, e Gerda saiu correndo, correndo, para o vasto mundo. Três vezes parou e voltou-se, olhando, para trás, mas ninguém a seguia. Cansada de tanto correr, sentou-se em uma grande pedra; olhou então em roda e viu que o verão já tinha passado e que era já o fim do outono. Lá dentro do belo jardim não percebera a fuga do tempo: o sol brilhava lá sempre com o mesmo esplendor, e as estações se confundiam; as flores desabrochavam o ano inteiro.
- Como me demorei! - suspirou ela. - Quanto tempo perdi! Já estamos no outono. Não posso perder mais um minuto!
Levantou-se para continuar a corrida; mas como lhe doíam os membros inteiriçados pela fadiga! Nem o tempo, nem a paisagem a convidavam também a andar. O céu era enuviado e frio. As folhas dos salgueiros já estavam amareladas, e iam caindo de uma em uma. Escorria umidade das árvores, como chuva. Só a ameixeira brava conservava os frutos, mas eram tão ácidos que embotavam os dentes, deixando um travo na boca.
Que frio, e que triste e cinzento era o vasto mundo!
IV - O PRÍNCIPE E A PRINCESA
Viu-se Gerda logo obrigada aparar para descansar de novo: não tinha mais forças para caminhar. E enquanto ela repousa um pouco ali, um grande corvo, empoleirado em uma árvore em frente da menina, olhava-a com curiosidade. A ave agitou a cabeça para um lado e para outro, e, disse:
- Grau! Grau ! G tac! G tac!
É mais ou menos assim que se diz " bom dia" naquele país, mas o pobre animal tinha muito sotaque. Contudo, apesar da má pronúncia, estava gostando da menina, e perguntou-lhe onde ia, assim sozinha pelo vasto mundo.
Gerda não entendeu, de tudo o que o corvo disse, senão a palavra "sozinha"; mas esta, conhecia-a ela muito bem, por experiência própria, e compreendeu o sentido da pergunta do corvo. Fez-lhe, pois, a narração de suas aventuras, e perguntou-lhe se não tinha visto Kay.
Sacudindo, gravemente a cabeça, respondeu o corvo:
- Quem sabe sabe? Talvez! Talvez!
Será possível? - exclamou Gerda, abraçando o corvo, de tão alvoraçada.
E beijou-o, muito contente: e quase o sufocou, de tanto que lhe apertou o pescoço, ao abraçá-lo.
- Mas devagar...mais devagar! - recomendou o corvo. - Creio que o vi...quero dizer: suponho que era ele...sim, pode ser que fosse. Sim, sim, é possível que seja o mesmo, mas não o firmo. Em todo o caso, já não se lembra de ti: só pensa agora na sua princesa.
- Princesa! Então ele mora em casa de uma princesa?
- Sim; escuta! Mas...é tão difícil a tua língua!Se soubesse, grasnar, ou ao menos falar o idioma corvino, eu poderia contar-te tudo, e muito melhor.
- Não...não aprendi essa língua, disse Gerda. Minha avó sim: não só entende, como fala também esse idioma. Ela sabe também palrar, isto é, fala a língua peguenta, que é o dioma das pêgas, como sabes. Pena é que eu não a tivesse aprendido!
- Não faz mal- disse o corvo. - Vou contar-te o caso o melhor que puder; mas desculparás meus erros de gramática, não é?
E contou-lhe o que sabia:
- Reina neste país uma princesa de inteligência prodigiosa. É tão sábia que leu todos os jornais que já foram impressos no mundo; mas a maior prova da sua sabedoria está em que ela esqueceu tudo quanto leu! Ainda pouco tempo estava ela sentada no trono - e, por falar nisso, parece que não é lá coisa tão agradável como parece, senta-se a gente em um trono, e que não basta isso para sermos felizes! - Para se distrair, começou a cantarolar uma canção, aquela que tem um estribilho assim:
"Por que então não me hei de casar?
Por quê? Por quê?"
- E ela disse consigo: "Por que não me hei de casar?" Mas o caso é que ela queria um marido que soubesse conversar, responder às perguntas que lhe fizessem; não queria um desses sujeitos graves e pretensiosos, solenes e cheios de si: são muito enfadonhos. Convocou, ao som do gongo, as damas de honor, e participou-lhes a ideia que tivera. E todas elas ficaram muito contentes. E diziam:
"É encantador! É o que todas nós dizemos todos os dias: Por que a princesa não se casa?
Neste ponto o corvo explicou:
- Podes estar certa de que o que te conto é a pura verdade. Sei tudo isto de minha noiva, que anda à vontade por todo o palácio.
A noiva era naturalmente uma corva; uma corva domesticada, porque os corvos só se casam com corvas. Mas, voltemos à história:
- Todos os jornais do país publicaram então a proclamação; todos eles apareceram naquele dia com uma cercadura de corações em chamas, com as iniciais da princesa. Dizia a proclamação que qualquer moço inteligente e de boa figura podia apresentar-se no palácio e conversar com a princesa: e que o que conversasse melhor, e se mostrasse mais senhor de si e de espírito mais atilado, (pessoa com aguçada inteligência de análise e compreensão das causas e efeitos.) casaria com ela. Sim, Sim! Podes acreditar no que te digo: tudo se passou como te conto; não estou inventando nada - tão certo como estarmos nós aqui conversando. Ora, apareceram moços às centenas. Mas eram despedidos todos, um por um. Enquanto estavam na rua, fora do palácio, tagarelavam como pêgas. Mas no que entravam pela grande porta, e passavam pela dupla fila de guardas, todos de uniformes cobertos de prata, perdiam logo o aprumo. E quando os lacaios agaloados de ouro os conduziam pela escadaria monumental dos vastos salões, inundados de luz de lustres inumeráveis, os pobres rapazes sentiam as ideias confusas; e uma vez diante do trono, onde a princesa estava sentada, cheia de uma majestade, nada mais sabiam dizer: repetiam, miseravelmente desorientados, a última palavra do que ela acabava de pronunciar ou antes - balbuciavam apenas. Ora, isso não interessava à princesa- ouvir repetir o que ela mesma dissera! Parecia que os pobres moços estavam enfeitiçados, e que um encantamento lhes travava a língua: porque assim que saíam do palácio e se viam na ruas, ao ar livre, recobravam o uso da palavra, e a língua se lhes soltava. Assim foi no primeiro e no segundo dia. Quanto mais gente era despedida, mas aparecia: parecia que brotavam na terra, tamanha era a fluência de pretendentes. Era uma fila imensa, desde as portas da capital até o palácio.
E o corvo repetia:
- Eu o vi; vi com estes olhos! Os que esperavam na rua a sua vez tiveram tempo de sentir fome e sede. Os mais espertos tinham trazido provisões, mas não caíam na asneira de reparti-la com os vizinhos. E pensava cada um lá consigo. "Que a língua s lhes pegue no céu da boca! Assim não poderão dizer uma palavra à princesa! " E é claro que, vendo um homem meio morto de fome e de sede, ele não havia de querê-lo para marido!
- Mas...e Kay ? - indagou Gerda. - Quando chegou ele? Estava no meio de multidão?
- Mas espera, espera um pouco- disse o corvo.- És muito impaciente! Lá chegaremos. No terceiro dia apresento-se um jovenzinho, que andava a pé. Muitos outros chegavam a cavalo ou de carro, como grãos-senhores. Dirigiu-se para o palácio, muito alegre: parecia vir ali só por divertimento. Tinha os olhos brilhantes como os teus; cabelos louros, compridos e muito lindos, mas vestia como um menino pobre.
- Oh! Era Kay! - gritou Gerda, radiante de alegria. - Achei-o! Enfim, achei-o!
- Levava às costas um saco - continuou o corvo.
- Não : havia de ser o trenó, pois o levou consigo.
- Pode ser - disse o corvo. - Não vi de perto. Mas, segundo me contou minha noiva, que é incapaz de alterar a verdade, quando chegou à porta do castelo, não se sentiu nada intimidado à vista nem dos guardas de uniforme bordado de prata, nem dos lacaios agaloados de ouro. E quando quiseram que ficasse esperando embaixo, ao pé da escada, foi dizendo logo: " Obrigado; não é nada agradável esperar de pé !" Subiu sem mais detença, e penetrou nos salões deslumbrantes de luzes. Lá dentro viu incensando o trono camaristas e ministros- todos eles calçados apenas de alpercatas, para não fazer barulho. Era bastante para desconcertar um homem não habituado a tanta solenidade, quanto mais a quem, como aquele jovem, sentia as botinas rangeram despropositadamente! Ele, contudo, não se intimidou.
- Sim! Era Kay! Lembrou-me de que quando desapareceu estava com as botinas novas, e que elas rangiam muito - eu mesma as ouvi ranger, naquele dia.
-E faziam um barulho diabólico! Mas o rapaz, como se aquilo não fosse com ele, caminhou em direção à princesa, que estava sentada sobre uma enorme pérola, do tamanho de uma almofada. Cercavam-na as damas de honor, com suas camareira, e as camareiras das suas camareiras; e todos os cortesãos, com os cavalheiros do seu séquito, e os servidores dos cavalheiros com seus pajens.Toda essa gente rodeava o trono, como disse, e quanto mais próximos da porta, mais orgulhosos se mostravam. E os últimos, que eram pajens dos pajens -aqueles que andam só de alpercatas - eram tão imponentes e tão rebarbativos, que a gente mal ousava encará-los. Mas o rapaz nem se apercebeu da sua presença.
- Havia de ser coisa tremenda, avançar no meio de toda essa Corte! - disse Gerda. - Mas e Kay? Conseguiu ele agradar a princesa?
- Se conseguiu! Digo-te que, não fora eu um corvo, e quem teria casado com ele era eu! Falou tão bem, com tanto espírito, como eu mesmo falo, quando falo o idioma corvino. Minha noiva contou-me tudo. Era um rapaz bonito e amável, e muito desembaraçado. Também não foi lá para pedi-la em casamento, não; disse-o de chegada: queria apenas verificar se a princesa era, de fato, tão espirituosa como diziam. Achou-a encantadora, e ela por sua vez gostou muito dele.
- Sim: não tenho mais dúvida alguma- era Kay! Sabia tantas coisas - até podia fazer cálculos de frações, de cabeça! Era tão esperto! Escuta! Queres levar-me ao palácio?
- Ah! Isso é fácil de dizer, mas por a ideia em prática...é outra coisa! Em todo o caso, vou falar com a minha noiva: talvez ela ache um meio de te introduzir lá dentro; mas torno a prevenir que jamais uma menina como tu - e de mais a mais, descalça- oh! jamais entrou naquele palácio.
- Pois eu hei de entrar! Quando Kay souber que estou lá irá imediatamente me procurar.
- Veremos se é possível. Vamos, que o palácio não fica longe daqui. Ficarás esperando no portão.
E o corvo ergueu a cabeça e bateu as asas. Lá se foi voando, e só voltou ao cair da noite.
- Grau! Grau! - disse ele ao chegar. - Minha noiva envia-te muitos cumprimentos, e este pãozinho, que tirou da cozinha para ti. Lá havia tanto, tanto pão! E ela pensou que havias de ter fome, não? Agora quanto a te apresentares no palácio- nem pensar nisso! Estás descalça, e os guardas recamados de prata, e os lacaios vestidos de brocado não o consentiriam. É impossível! Mas espera, não chores assim: entrarás de qualquer maneira. Minha noiva, que faria tudo para me ser agradável, conhece uma escada de serviço, que vai ter ao quarto de dormir, e ela sabe onde está a chave.
O corvo conduziu a menina pela grande alameda da entrada; e assim como caíam as folhas das árvores, uma por uma, assim também as luzes da fachada do palácio foram-se apagando, uma por uma. E quando tudo ficou às escuras, o corvo levou Gerda para uma porta baixa, que estava entreaberta.
E como palpitava - de angústia e de esperança- o coração da menina! Era como se ela fosse cometer uma falta, assim se esgueirando na sombra, furtivamente. No entanto só queria saber se de fato era Kay quem estava lá dentro. Certo é que já quase nem tinha dúvidas: devia se ele! Aquilo que o corvo dissera -cabelos compridos e brilhantes, olhos vivos e inteligentes, língua desembaraçada- não podia referir-se senão a Kay. Já lhe parecia vê-lo sorrir, como no tempo em que brincavam juntos em casa, à sombra das roseiras.
- Como ele vai ficar contente de me ver! - pensava ela. - E me fará perguntas. E como se comoverá quando eu lhe contar toda a tristeza que reinou na sua casa e na nossa, quando ele desapareceu!
Subiram a escada; no patamar ardia uma pequena lanterna sobre um móvel. Esperava-os a corva domesticada, que dava saltinhos e voltava a cabeça, toda dengosa, para o lado do corvo; Gerda fez-lhe uma reverência, como a avó lhe tinha ensinado.
- Meu noivo falou-me muito bem de ti, boa menina- disse a corva.- E tua vida- Vita, como dizem alguns - comoveu-me muito, e prometi-lhe que te ajudaria. Queres levar a lanterna? Podes seguir-me sem receio: não encontraremos ninguém.
- Mas parece-me que vem alguém atrás de nós- disse a menina.
É que na parede apareciam sombras estranhas: cavalos de crinas compridas e pernas delgada, caçadores, cavaleiros e amazonas elegantes.
- Ah! São os sonhos- explicou a corva domesticada. - Levam os pensamentos de Suas Altezas para as suas correrias e caçadas. E é melhor assim: não acordarão facilmente, e poderás contemplá-los mais de perto. Espero agora que, quando lhes tiveres caído em graça, e te encherem de honras, não te esqueças de nos mostrar um coração generoso.
- Disso tenho toda a certeza- acudiu o corvo do mato.
E via-se bem, por estas palavras, que era um corvo silvestre e nada civilizado: não tinha a experiência da Corte.
Entraram em uma sala, cujas paredes eram forradas de cetim róseo, todo bordado de flores. Os sonhos também passaram por ali, e voltavam a galope; mas iam tão depressa que Gerda não chegou a ver os pensamentos de Suas Altezas, que eles levavam, que eles levavam. Entraram depois em outra sala, e em outra ainda, e cada qual mais magnificente. Era para desorientar qualquer pessoa, todo aquele luxo prodigioso. Mas Gerda apenas lhes deitava um rápido olhar: só pensava em tornar a ver o seu companheiro de brinquedos.
Chegaram por fim ao quarto de dormir. O teto, todo de cristal, formava uma grande coroa de folhas de palmeira. No meio erguia-se uma grossa haste de ouro maciço, que sustentava dois leitos, em forma de lírios: um branco, onde repousa a princesa, o outro cor de fogo, que era o do príncipe. Gerda aproximou-se deste, certa de encontrar o seu amigo Kay. Levantou uma das pétalas cor de fogo, que abaixavam de noite, para abrigar o príncipe, e viu-lhe a nuca: mas o rosto ela não pode ver, por que ele o tapava com os braços. Julgou que era de fato Kay, e chamou-o pelo nome, mantendo a lanterna erguida, para que ele a visse ao abrir os olhos. Os fantasmas do sonho voltaram a todo o galope, trazendo o espírito do moço, que despertou o ergueu a cabeça.
E... não era Kay!